Por Lecticia Jorge
É médica nefrologista e intensivista, gerente médica nacional da Fresenius Medical Care
Hoje conseguimos prever o risco de piora da função renal com ajuda de algoritmos. Temos medicamentos capazes de retardar a progressão da doença e, ao mesmo tempo, proteger o coração. Na UTI, ferramentas baseadas em inteligência artificial já conseguem sinalizar a probabilidade de lesão renal aguda antes que ela se instale por completo. As máquinas de diálise são mais seguras, mais eficientes e mais sustentáveis do que jamais foram.
Nunca a nefrologia avançou tanto. E, ainda assim, seguimos falhando no básico.
A Doença Renal Crônica afeta cerca de 10% da população mundial, algo próximo de 850 milhões de pessoas. Já figura entre as principais causas de morte no planeta e pode chegar à quinta posição até 2040. No Brasil, estima-se que 10 a 12 milhões de pessoas tenham algum grau de comprometimento renal. A maioria não sabe.
Os rins não doem nas fases iniciais. Não interrompem a rotina. Não avisam que estão perdendo função. Quando os sintomas aparecem; cansaço extremo, inchaço, falta de ar; muitas vezes já estamos diante de insuficiência renal avançada.
Como intensivista e nefrologista que atua com pacientes agudos, vejo com frequência esse ponto de ruptura: pessoas que chegam à emergência com lesão renal grave, muitas vezes associada a infecções, cirurgias complexas, uso indiscriminado de anti-inflamatórios ou descompensação de doenças crônicas. Parte desses casos poderia ter sido evitada. Outra parte poderia ter tido desfecho menos dramático com diagnóstico precoce.
O contraste é evidente. De um lado, medicina de precisão. De outro, ausência de rastreamento sistemático.
Segundo dados do censo da Sociedade Brasileira de Nefrologia, o Brasil já ultrapassa 170 mil pessoas em diálise, número que cresce a cada ano. Muitos desses pacientes descobrem a doença quando precisam iniciar tratamento de forma urgente, em ambiente hospitalar.
Isso tem impacto humano e econômico. O tratamento dialítico e o transplante renal estão entre as terapias de maior custo per capita do sistema público. Enquanto isso, exames simples, como a creatinina, análise de urina, controle rigoroso da pressão arterial e da glicemia, são acessíveis e amplamente disponíveis. O que falta é incorporá-los de maneira sistemática para grupos de risco, especialmente diabéticos, hipertensos e idosos.
Na UTI, a lesão renal aguda é um divisor de águas. Pacientes que desenvolvem esse quadro têm maior risco de mortalidade, maior tempo de internação e maior probabilidade de evoluir para doença renal crônica no futuro. A tecnologia nos ajuda a antecipar riscos, ajustar doses de medicamentos e individualizar o cuidado. Mas ela não substitui a vigilância clínica nem resolve desigualdades estruturais.
Não se trata de escolher entre alta tecnologia e prevenção. Precisamos das duas.
A inovação é indispensável: novos fármacos, monitoramento inteligente, equipamentos mais precisos. A indústria e a pesquisa têm papel decisivo nesse avanço, inclusive no Brasil, onde empresas como a Fresenius Medical Care contribuem com tecnologia e capacitação profissional. Mas nenhuma inovação compensará a ausência de diagnóstico precoce.
O médico da atenção primária continua sendo peça-chave. É ele quem acompanha o hipertenso que aparentemente está “bem”, o diabético com glicemia irregular, o paciente idoso polimedicado. É nessa consulta que a doença renal pode ser identificada ainda silenciosa.
A inteligência artificial pode calcular risco. O medicamento pode retardar a progressão. A máquina de diálise pode manter alguém vivo por anos. Mas o verdadeiro avanço civilizatório será reduzir o número de pessoas que chegam a precisar dela.
Neste Dia Mundial do Rim, talvez o maior gesto de modernidade seja reforçar o básico: medir, rastrear, acompanhar. Alta tecnologia salva vidas. Prevenção salva milhões. E, na saúde renal, o silêncio nunca pode ser confundido com ausência de doença.

