A médica pneumologista, Margareth Dalcolmo, com especialização na FIOCRUZ e doutorado
na UNIFESP, é membro titular da Academia Nacional de Medicina, e possui um extenso currículo
que a coloca no pódio como uma das maiores cientistas do Brasil e do mundo. Ela será a palestrante
da Conferência Magna no Congresso da Sociedade Brasileira de Análises Clínicas, com o tema
“O impacto social das epidemias ao longo do tempo”, em junho de 2025 na cidade de Campinas (SP).
Em uma conversa exclusiva com a LABORNEWS, ela antecipa algumas reflexões e informações sobre o tema que irá discorrer na sua palestra, e faz uma grande revelação pessoal, além de alertar para uma nova e eminente pandemia.
Ela explicou que “os fenômenos biológicos, as pequenas e grandes epidemias, marcam a História do Homem desde muito tempo, sobretudo no ocidente. Nós temos registros de grandes epidemias desde a peste Antonina no Império Romano”. Dalcolmoexplicou que a ausência de hábitos higiênicos contribuiu fortemente para a contaminação das epidemias na Idade Média: “neste período, sobretudo ao longo do século 14, até a entrada do século 15, as pestes foram bubônicas, decorrentes da contaminação pela pulga do rato, infectando as caravelas, onde as pessoas ficavam em condições precaríssimas de higiene. Além disso, as áreas urbanas não tinham condição higiênica minimamente razoável, mesmo na realeza europeia e no mundo oriental não havia instalações sanitárias, e até os dejetos humanos eram jogados pela janela”.
“Se olharmos as grandes epidemias, as chamadas pestes negras, como a literatura denomina, a ultima foi em 1497, quando morreram milhares de pessoas. Isto está muito bem registrado, inclusive com celebres publicações como em Decameron, do Boccaccio, uma história de dez jovens em Florença que se esconderam da epidemia”.
COMO MILÃO CONTEVE UMA EPIDEMIA NA IDADE MÉDIA
“E já naquela ocasião, já se podia perceber que existia certo negacionismo da própria existência de uma epidemia. Mas existiam, também, governantes muito inteligentes, que eram o contraponto, como o que aconteceu no Brasil e em outros países na ultima grande epidemia que nós vivemos e que está completando cinco anos agora. A Lombardia, que foi tão duramente machucada pela Covid19, foi a região mais preservada da Itália da grande peste negra, porque, os governantes de Milão, quando souberam que a epidemia estava chegando, juntaram plebe e realeza, e fizeram um cinturão sanitário em volta da cidade, e Milão foi a cidade mais protegida, ali não teve peste. Não é uma coincidência! Isso mostra uma inteligência de um governante que não negou a existência da epidemia” nos contou Dalcolmo.
“É apenas um exemplo para mostrar que a história se repete muito, ela só muda os personagens, mas na verdade o comportamento humano tem uma reiteração para o bem ou para o mal”, frisou Dalcolmo.
Ela ressalta que “em geral, ao longo da História, cada um desses eventos – e o século 14 é muito paradigmático neste sentido – a maioria deles gerou um fenômeno cultural subsequente”, explicou. “Depois de todas essas pestes do século 14, veio o renascimento com enorme produção cultural, com Michelangelo, Leonardo, e todas as maravilhas que compõem este período”.
“Adiante, veio, ao final do século XVIII, a Revolução Industrial. Na época, Londres tinha sido dizimada por epidemias e peste bubónica. Mas a Revolução Industrial também foi um fenômeno que marcou a mudança das noções sanitárias no mundo europeu. Aqui nas Américas vivíamos em condições muito precárias, de certa maneira, de saneamento, mas não tivemos grandes epidemias”,lembrou.
A GRIPE ESPANHOLA NÃO NASCEU NA ESPANHA!
“Seguindo a linha do tempo, houve outras epidemias de outras causas, até que nós chegássemos ao começo do século passado, com a epidemia de influenza, que foi a gripe Espanhola, em dúvida, a maior epidemia de todos os tempos: matou 50 milhões de pessoas no mundo, o que, na proporção da população mundial hoje, equivaleria a 200 milhões de mortos. Era um vírus muito provavelmente de origem na China. Embora tenham sido verificados os primeiros casos nos Estados Unidos, ela tem este nome porque a Espanha era um país neutro na I Guerra Mundial, e o único país da Europa que informava sobre o que estava acontecendo. Por isso ficou a denominação Gripe Espanhola, quando na verdade, esta epidemia não tem nada a ver com a Espanha”.
E no Brasil? Ela conta que “aqui no Brasil a Gripe Espanhola foi muito devastadora, e isto está muito bem documentado pela literatura internacional
e nacional, inclusive, pelo grande médico e memorialista Pedro Nava, em Baú de Ossos e Galo das Trevas, que relatam a epidemia no Rio de Janeiro, quando as pessoas retiravam as tábuas corridas dos assoalhos das casas para fazer caixões, pois a cidade enterrava cerca de 900 pessoas por dia!”. A Gripe Aviária no final dos anos 90 foi relativamente bem controlada. O Brasil na época comprou estoque enorme de medicamentos, o antiviral oseltamivir. Enfim, estávamos preparados para a contingência!
O SÉCULO 21 TRAZ EPIDEMIAS E UM MINISTRO ANTI-VACINA NOS EUA
Dalcolmo comenta que “começamos o século 21 com uma grande pandemia, e agora entramos num período de obscurantismo absolutamente constrangedor com a nova administração norte-americana, com a nomeação de um ministro da saúde anti-vacina, e anti-ciência inclusive, quando estamos diante de uma nova epidemia nascida nos Estados Unidos, uma nova Gripe Influenza, o vírus H5N1, uma gripe aviária, que passou para os mamíferos, e hoje contamina grande parte do gado leiteiro do centro dos Estados Unidos, revelando que são os frigoríficos hoje, os grandes celeiros de transformação da contaminação. Nós sabemos que as vacas leiteiras eliminam milhões de partículas virais pelo leite, e que a única maneira de usá-lo, é pelo processo de pasteurização, mas o novo ministro da saúde dos EUA manda as pessoas tomarem leite cru! E é o fato de ferver o leite que impede a transmissão de patógenos, virais ou bacterianos. Eu imagino que meu ídolo, LuisPasteur, deve estar tendo convulsões naquele seu belo tumulo no Instituto que leva seu nome em Paris”.
A REVOLTA CONTRA A VACINA NO BRASIL
“Há muitas questões que acompanham as grandes epidemias e essa mudança de paradigma com doenças transmissíveis, sobretudo vírus de transmissão respiratória, foi iniciado ainda no final de século de 18, com as vacinas, que começam a fazer a diferença. A literatura mostra episódios realmente seminais, até 1904, com a chamada Revolta contra Vacina, quando a febre amarela atingiu o Rio de Janeiro, na época, capital da República, mas uma pocilga sem saneamento básico! Foi então que o Prefeito e Oswaldo Cruz, conseguiram convencer uns e vacinar compulsoriamente a população, com apoio de cientistas”, Dalcolmo historiou.
Ela conta que no século 19 o mundo viveu a epidemia de cólera (1817), que foi responsável até mesmo por pandemias, e a primeira pandemia de influenza, em 1830, e varias epidemias de cólera ao longo do tempo até o final do século 19 e inicio do século 20 com outra série de epidemias em várias partes do mundo, além da Gripe Espanhola. Adiante, a pandemia de HIV-AIDS, provocando, até 2024, cerca de 35 milhões mortos. Hoje está de certa maneira controlada.
“O que sabemos em ultima analise, é que estas grandes viroses pandêmicas de transmissão respiratória aguda, são dominadas se controladas com vacina e as viroses ditas crônicas – cujos dois exemplos são HIV-AIDS e Hepatite C -, se curam com remédio”, revela. “Chegando ao século 21, em 2003 houve a epidemia do SARS 1, em 2009 a Gripe Suína, em 2012 o MERS-COV restrita à região do oriente médio, e finalmente em 2019 a Grande epidemia do Coronavirus, o Sars-cov 2, com aproximadamente 30 milhões de mortes até a virada de 2024 para 2025 no mundo”.
DRA. MARGARETH DALCOLMO FAZ UMA REVELACAO PESSOAL
Quais os ensinamentos da última pandemia? Dalcolmo de pronto responde: “Eu, como médica e escritora, tenho que reconhecer que errei”. E ela explica por quê: “eu escrevi um artigo no meu livro de que, seguindo os grandes processos epidêmicos que se deram no mundo nos últimos dois mil anos, a pandemia da Covid-19 poderia gerar um fenômeno cultural positivo, resultante dela, com tanto sofrimento que ela trouxe. E na verdade, eu me sinto muito frustrada e tendo de reconhecer que eu errei redondamente. Na verdade a consequência da pandemia da Covid-19 foi um mundo pior, mais desigual, muito mais injusto, guerras insanas e tirânicas no mundo, com exclusão social, e uma desigualdade cada vez mais obscena”.
AS VACINAS E O OBSCURANTISMO DIANTE DA PANDEMIA DE COVID-19
“Desde o diagnóstico até o acesso às vacinas houve este paradoxo entre a excelência e o obscurantismo. O ser humano foi capaz de produzir vacinas para a pandemia, numa eficiência, que não é nem a questão da velocidade, porque nós sabemos que essas plataformas que foram usadas para as vacinas já existiam e funcionaram muito bem para Covid 19, o que nos permitiu transformar uma pandemia, com transmissão aguda, num vírus que não tem hoje mais um padrão de epidemia, mas de endemia, que vive entre nós e provavelmente não desaparecerá. Razão pela qual a tendência no mundo todo é que as vacinas para covid-19 passem a ser feitas regularmente, e hoje há tendência de produzir uma vacina única que associe vírus da Influenza e Coronavírus, para que nós possamos tomá-la eventualmente, todo ano!”
Dalcolmo complementa: “e neste período, onde foram realizadas tantas coisas positivas por um lado, por outro, foram estimulados o obscurantismo no sentido de negar o óbvio! Não é possível que alguém negue que nós conseguimos controlar a pandemia, a despeito de todas as desigualdades no acesso as vacinas – que foi um escândalo realmente, porque o mundo desenvolvido tinha estocado quase 4 doses para cada habitante enquanto países da África não conseguiram vacinar. O esforço dos organismos internacionais foi um fracasso e o mundo não conseguiu fazer uma distribuição democrática, ou minimamente justa, das vacinas para Covid-19″.
DALCOLMO: ESTAMOS À BEIRA DE UM NOVO PERIODO PERÍODO PANDÊMICO
“Estamos à beira de um período pandêmico, uma nova gripe aviária, causada pelo vírus H5N1, de origem norte-americana. Já houve o spillover, quando o vírus é passado do mundo animal para o mundo humano, e hoje os cientistas sabem que ela contaminou o gado, animais domésticos (gatos), e já há transmissão para o ser humano, basicamente pessoas que tiveram contato com fazendas, gado leiteiro, ou mesmo aves. Nos EUA, onde monitoram estes casos, nós temos até fevereiro de 2025, 79 casos registrados, e infelizmente esse dado pode não estar atualizado porque pela ordem do novo governo norte-americano o CDC deixou de publicar um boletim semanal chamado MMWR que era a fonte de todos nós”,revelou.
Pra nós é uma preocupação, porque na verdade, nós não podemos mais ser pegos tão desprevenidos, quando fomos para o Sars-Cov2. O mundo tem de ter estoques de contingência, um preparo, e, sobretudo, o que eu chamaria de uma inteligência nacional que possa ser acionada num momento de tomadas de decisão quando eclodir eventualmente, uma nova pandemia.