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Vacina de mRNA contra câncer reduz em 42% risco de recidiva ou óbito

Uma vacina personalizada contra o câncer, desenvolvida pelas farmacêuticas Moderna e MSD, reduziu em 42% o risco de recidiva em pacientes com melanoma de alto risco após a remoção cirúrgica do tumor.

Outubro de 2026 7 min de leitura
Vacina de mRNA contra câncer reduz em 42% risco de recidiva ou óbito

Uma vacina personalizada contra o câncer, desenvolvida pelas farmacêuticas Moderna e MSD, reduziu em 42% o risco de recidiva em pacientes com melanoma de alto risco após a remoção cirúrgica do tumor. O resultado faz parte do estudo de fase 3 INTerpath-001, que avalia o uso do intismeran autogene, também conhecido como V940 ou mRNA-4157, em combinação com o imunoterápico pembrolizumabe (Keytruda), em comparação com pembrolizumabe combinado ao placebo. Os resultados detalhados foram apresentados neste sábado (24), durante o Simpósio Presidencial I do congresso da European Society for Medical Oncology (ESMO 2026), em Madri, na Espanha.

O estudo incluiu 1.137 pacientes com melanoma em estágios IIB a IV que tiveram o tumor completamente removido por cirurgia. Após um acompanhamento mediano de 24,6 meses, 82,2% dos pacientes que receberam a combinação permaneciam sem recidiva ou morte em dois anos, contra 70% entre aqueles tratados apenas com pembrolizumabe. O resultado corresponde a uma redução de 42% no risco relativo de recidiva.

A combinação também reduziu em 38% o risco de desenvolvimento de metástases à distância do melanoma. Aos dois anos, 88,5% dos pacientes que receberam o tratamento combinado permaneciam sem metástase à distância, ante 80,2% no grupo que recebeu apenas pembrolizumabe. Os dados de sobrevida global, no entanto, ainda não estão maduros, e o estudo continua em acompanhamento.

Resultados complementares também apontaram benefícios importantes. Em uma análise previamente planejada que considerou os pacientes que receberam pelo menos uma dose do tratamento previsto, a redução do risco de recidiva ou morte foi de 49%. Outra análise, que avaliou o efeito do tratamento ao longo do tempo, identificou uma redução de 58% nesse risco após os primeiros seis meses, período posterior ao esquema inicial de imunizações com a terapia personalizada. Nos primeiros seis meses, os resultados dos dois grupos foram semelhantes. Essas análises adicionais ajudam a compreender a evolução do benefício, mas não substituem o resultado principal, que confirmou uma redução de 42% no risco de recidiva da doença.

“Mesmo com a cirurgia e o tratamento adjuvante com pembrolizumabe, ainda existe um grupo de pacientes com melanoma de alto risco que apresenta recidiva. O INTerpath-001 investigou uma forma de ampliar essa proteção, combinando a imunoterapia com uma terapia desenvolvida a partir das características do tumor do próprio paciente. A redução do risco de recidiva e de metástases à distância é um resultado relevante para o tratamento desses pacientes”, afirma o Dr. Rodrigo Perez Pereira, líder nacional da especialidade pele da Oncoclínicas.

De acordo com o Dr. Raphael Parmeggiani, vice-presidente de Assuntos Científicos em Oncologia da América Latina da CENTOGENE, reforça ainda que o resultado é relevante, pois demonstra que uma estratégia individualizada pode acrescentar benefício à imunoterapia em pacientes com melanoma de alto risco após a cirurgia. “Agora, uma questão importante é entender se essa redução no risco de recidiva se traduzirá também em ganhos de sobrevida ao longo do tempo. Esse acompanhamento será fundamental para dimensionar o impacto da abordagem na prática clínica”, afirma

Diferentemente das vacinas tradicionais, desenvolvidas para prevenir infecções antes que elas ocorram, o intismeran autogene é uma terapia investigacional destinada a pacientes que já tiveram seu melanoma removido cirurgicamente. O tratamento é produzido individualmente a partir da análise molecular do tumor de cada paciente, identificando alterações genéticas que podem gerar proteínas reconhecidas pelo sistema imunológico, os chamados neoantígenos.

O processo começa com a análise de uma amostra do tumor e de sangue do paciente, permitindo distinguir as alterações genéticas específicas do câncer. Com o auxílio de ferramentas computacionais, os pesquisadores selecionam até 34 neoantígenos com potencial para serem reconhecidos pelo sistema imunológico. A partir dessas informações, é produzido um medicamento baseado em RNA mensageiro (mRNA) capaz de codificar esses neoantígenos selecionados para aquele paciente.

“Estamos falando de uma abordagem em que cada medicamento precisa ser desenvolvido com base nas características de um tumor específico. Isso exige a integração entre sequenciamento genético, ferramentas computacionais e fabricação farmacêutica. O fato de a terapia ter sido produzida com sucesso para mais de 99% dos pacientes previstos no estudo é importante porque demonstra que essa personalização pode ser executada também em um ensaio clínico de grande porte”, explica Parmeggiani.

No estudo INTerpath-001, o tratamento personalizado foi administrado em combinação com pembrolizumabe. A terapia de mRNA foi aplicada em doses a cada três semanas, por até nove administrações, enquanto o pembrolizumabe foi utilizado por aproximadamente um ano. O imunoterápico bloqueia a proteína PD-1, mecanismo utilizado por células tumorais para escapar da ação do sistema imunológico. Dessa forma, as duas estratégias atuam de maneira complementar: enquanto a vacina busca ensinar o sistema imune a reconhecer características específicas do tumor, a imunoterapia favorece a manutenção dessa resposta contra as células cancerígenas.

“Um aspecto importante desse estudo é mostrar que a personalização pode ser viabilizada em um ensaio clínico internacional de fase 3. Cada vacina depende da identificação das mutações do tumor, da seleção dos alvos com potencial de gerar uma resposta imunológica e da produção de uma formulação específica. Conseguir realizar esse processo para mais de 99% dos pacientes previstos para receber a terapia é um resultado relevante também do ponto de vista operacional”, explica Pereira.

O melanoma é um tumor que se origina nos melanócitos, células responsáveis pela produção de melanina, e pode apresentar comportamento agressivo quando se espalha para outros órgãos. A retirada cirúrgica é a principal forma de tratamento quando a doença está localizada, mas pacientes com tumores de maior risco podem receber tratamentos adicionais após a cirurgia para reduzir a possibilidade de recidiva.

É nesse cenário que o estudo INTerpath-001 busca avaliar o potencial da abordagem personalizada. Os participantes tinham melanoma completamente ressecado em estágios IIB, IIC, III ou IV, e foram distribuídos aleatoriamente para receber a combinação de intismeran autogene e pembrolizumabe ou placebo e pembrolizumabe.

Os resultados representam um avanço na investigação de terapias individualizadas para reduzir o risco de retorno do câncer após a cirurgia. “A diferença observada nas taxas de sobrevida livre de recidiva e de metástases à distância indica que a estratégia pode acrescentar benefícios ao tratamento adjuvante já utilizado nesse cenário. Ainda assim, o acompanhamento mais prolongado será importante para determinar a duração desse efeito e esclarecer se a combinação também proporciona ganho de sobrevida global”, complementa o Dr. Rodrigo Perez Pereira.

Apesar dos resultados positivos, o tratamento ainda é investigacional e não está disponível rotineiramente para pacientes. Moderna e MSD informaram que estão em diálogo com autoridades regulatórias com base nos resultados do estudo. Os dados de segurança foram considerados consistentes com os observados anteriormente para a combinação, sem identificação de novos sinais de segurança. Eventos adversos relacionados ao tratamento de grau 3 a 5 foram registrados em 14,2% dos pacientes que receberam intismeran autogene e pembrolizumabe, em comparação com 13,4% daqueles tratados apenas com pembrolizumabe. Entre os efeitos mais frequentes no grupo da combinação estavam febre, dor no local da aplicação e fadiga.

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